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A coisa mais importante

A coisa mais importante

Estou sentado na prisão, estou na minha cela. Está escuro, alguém tirou todas as lâmpadas da cela. Então estou sentado perto da porta, assim a luz do corredor lá fora pode me permitir ver o que estou escrevendo.

Estive aqui por uma semana, mas parece ter sido mais. Nas prisões Equatorianas não há livros, não há TV, não há mídia. Nós saímos por 5 horas por semana e podemos receber, no máximo, 2 visitantes durante três horas aos sábados. Os minutos passam bem lentamente. Então eu penso e eu escrevo.

Muitos anos atrás, um amigo me disse (e ele disse isso várias vezes a várias pessoas): Qual a coisa mais importante que você poderia fazer? Você está fazendo? Se não, por que não? Isso ficou comigo como uma diretriz importante. Realmente, nosso tempo é curto, devemos fazer a coisa mais importante.

Nasci com um monte de privilégios. E durante a minha vida, na maior parte das vezes através de sorte, eu adquiri ainda mais. Deixe eu esclarecer, eu não mereço privilégio mais do que nenhuma outra pessoa. Na minha opinião, nenhum ser humano merece privilégio. Porém, eu o tenho, então o que eu faço?

Uma opção é ignorá-lo e agir como se ele não existisse. Pra mim, isso é uma opção abominável. Não, pra mim privilégio significa responsabilidade. Eu odeio algo que não mereço e do que não posso me livrar. Logo, eu preciso usá-lo para melhorar o mundo. É simples assim. Privilégio significa responsabilidade, poder significa responsabilidade.

Então, qual a coisa responsável? Como meu amigo me disse, logicamente, a coisa mais responsável que você pode fazer é trabalhar na coisa mais importante que você poderia fazer. É um passo lógico.

Claro, não é simples assim. Você precisa escolher algo onde você tem - ou pode adquirir - as habilidades corretas. Você precisa escolher algo onde você tem uma chance de sucesso. Você precisa ter acesso aos recursos certos. Todas essas considerações estão embutidas nas perguntas originais.

Sentado aqui em minha cela eu me faço a pergunta. Do mesmo jeito que eu me perguntei centenas de vezes ao longo do ano passado. Ainda não tenho certeza da resposta.

Obviamente, não sou muito produtivo sentado aqui. Mas talvez eu ser um mártir, sequestrado pelo governo do Equador, possa servir pra começar discussões, capturar atenção e abrir novas formas para lutar. Talvez vá servir pra acordar algumas pessoas.

Claro que eu não tenho muita escolha na minha situação atual, mas eu posso aplicar a pergunta para a minha vida anterior e eu posso começar a pensar sobre o que deve vir em seguida. Esses pensamentos estão tomando a maior parte da minha mente ultimamente.

Então, sobre minha vida anterior, eu decidi há muitos anos que o campo da privacidade é tanto algo extremamente importante quanto algo que meus conhecimentos específicos e minhas conexões me permitiriam fazer algo importante. Então, eu trabalhei em ferramentas que melhorassem a privacidade. Pra mim, privacidade é algo que é absolutamente necessário aos seres humanos pra que sejam livres e a ascensão da vigilância está ameaçando a privacidade no seu cerne.

Meu objetivo com a CAD (e as iterações anteriores) do conceito era criar um grupo de pessoas com as habilidades necessárias para levar a privacidade à frente em vários esforços diferentes. Há tanto no que trabalhar! Tanto as implementações dos protocolos de hardware e software, quanto infraestrutura e sistemas do usuário final. E nós estávamos apenas começando.

O negócio com a coisa mais importante é que ela pode mudar. Quando eu sair, eu terei possibilidades diferentes das que eu tinha antes. Eu não sei o que isso significa. Talvez não tenha um jeito de saber até que eu saia. Mas ainda é algo no que eu tenho pensado.

Insisto que todos vocês considerem essas questões. Dediquem suas vidas à coisa mais importante.

Em solidariedade, Ola Bini